segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Marketing Político: Entre o profissionalismo e a solução caseira

        Muitas vezes políticos e candidatos são levados a adotar uma “solução caseira” em sua comunicação de campanha ou de mandato. Por solução caseira entende-se o uso de pessoas com algum conhecimento de jornalismo, publicidade ou marketing, disponíveis gratuitamente ou por um valor irrisório, trabalhando amadoristicamente com equipamentos domésticos, baixa informação em uma equipe improvisada, sem experiência de campanhas e sem autoridade para contrariar o político/candidato, mesmo quando esse está errado.
        Há candidatos que se recusam a contratar profissionais externos, seja por uma ilusória economia, seja pela falta de conhecimento dos possíveis benefícios. Para eles, a mão-de-obra local é mais que suficiente para conduzir uma campanha. Contudo, com o processo de modernização das campanhas políticas, esta atitude intransigente certamente custará caro.
        Certas técnicas e procedimentos de campanha, ou são garantidos na sua idoneidade e qualidade por profissionais com conhecimentos específicos, ou é melhor não praticá-las. Soluções caseiras, via de regra, não possuem a experiência e o conhecimento especializado para definir questões como o posicionamento da candidatura, pesquisas de opinião ou o foco  temático da comunicação publicitária, aspectos fundamentais da estratégia e do marketing político. 
        É importante não se confundir campanhas caras com campanhas vitoriosas, atribuindo uma relação de causa e efeito entre os dois atributos. A vitória abençoa o bom candidato, preparado, comunicativo; a campanha moderna, eficaz; a comunicação focada e a estratégia inteligente.
        Portanto, mesmo campanhas com poucos recursos podem, e devem, alcançar estas metas para vencer. Por outro lado, por mais rica que seja a campanha, não se conseguirá eleger um candidato ruim com uma estratégia mal feita.
        O problema da “solução caseira” é que ela sacrifica a eficiência de uma campanha com recursos modestos, que estava ao seu alcance, pela “economia ilusória”. Trata-se, como se vê, de um conceito de economia vulgar, simplório e basicamente equivocado.
        Deve-se tomar muito cuidado, pois, com soluções aparentemente simples e baratas. Elas existem, mas não podem ser encaradas como uma panacéia. Há áreas que a campanha tem que trabalhar com um mínimo de profissionalismo, até mesmo para que os recursos que nela foram aplicados possam produzir os resultados e efeitos esperados.
        É preciso ter a consciência de que a solução caseira pode ser a mais barata, em compensação, é também a menos eficiente. Afinal, não há nada mais caro em política do que a derrota.

(Adaptado de politicaparapoliticos.com.br – Em “A publicidade em ação”)

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Amnésia eleitoral e reforma política

        A constituição brasileira ao estabelecer a obrigatoriedade do voto cometeu conscientemente um grande paradoxo democrático: tornou um “direito” em “dever”. Dessa forma, em sendo obrigatório, deixa de ser democrático e passa a ser autoritário, imperioso. Mas esta não é a discussão que queremos aqui levantar, e sim, sobre uma de suas conseqüências.
        Ao ser obrigado a votar, o ‘eleitor médio’ acaba por não fazer uma decisão consciente, seletiva. Ou seja, a escolha eleitoral, em sua maioria, não é qualitativa, comprometida, sendo muitas vezes definida no caminho até a seção, ou quiçá, na frente da própria urna (daí o motivo da prática da “boca de urna” por parte dos candidatos).
        Tal fato se torna ainda mais concreto quando a função dos cargos em disputa é desconhecida pelo eleitor. Pesquisas revelam que o bordão usado pelo deputado federal eleito, Tiririca, ao dizer ironicamente “você sabe o que faz um deputado? Não? Nem eu!”, é a mais pura verdade. Esse desconhecimento das funções e, conseqüentemente dos benefícios sociais que deveriam ser esperados daquele representante, aliado ao descrédito da atividade política, levam o ‘eleitor médio’ a fazer escolhas que são esquecidas muito brevemente.
        Pesquisa do TSE realizada em novembro de 2010, apenas um mês após as eleições, constatou que um em cada cinco eleitores não se lembrava mais em quem havia votado para deputado! Confirmando a tese, além do esquecimento do voto, parcela significativa dos entrevistados admitiu ser mal informada sobre o papel a ser desempenhado pelos eleitos: 42% disseram não saber o que faz um senador e 40% não sabem a função dos deputados, federal ou estadual. O levantamento mostrou ainda que 46% revelaram pouco ânimo para exercer o “direito ao voto”.
        Passados mais alguns meses, não é difícil encontrar eleitores que já não se lembram em quem votou. Assim, por não se lembrar em quem votou, o eleitor não poderá cobrar as propostas de campanha do candidato. Com a falta de acompanhamento ao longo do mandato, diminui a cobrança sobre os parlamentares, completando-se o ciclo da amnésia eleitoral, até a próxima eleição, quando a epidemia já atinge de 70% a 80% dos eleitores.
        O remédio? Entre distribuir “memorol” maciçamente para a população ou mudar o sistema político brasileiro, a medida mais eficaz é modificar as regras eleitorais. Para isso, a reforma é o caminho para reduzir a distância que separa o povo da esfera política, possibilitando o aumento da memória social, sem prejuízos para a saúde pública.